O real valor do retorno do ‘craft’ no design
“Se importe implacavelmente com os detalhes.” — Jenny Wen, líder de design na Anthropic
Neste mundo cada vez mais artificial, estamos vivenciando um retorno glorioso do que chamamos de ‘craft’ no design.
É chato não termos uma tradução adequada de ‘craft’ para o português. Artesania? Quase, porque não de trata de ‘feito à mão’ literalmente, mas de algo feito com um alto grau de técnica e sensibilidade humana. Às vezes, até quase à mão mesmo. Para a nova abertura da AppleTV, a marca ganhou forma em vidro e foi filmada sob diferentes luzes coloridas, ao invés de ser gerada por computador.
A identidade mais incrível que eu vi nos últimos tempos é da TIEN, uma loja de roupas usadas na Holanda, construída com letras usadas, que são recortadas e combinadas em inúmeros looks.
O esboço à mão está voltando à arquitetura.
A Not Boring Software é um protesto radical contra a mesmice que se transformou o design de qualquer produto digital.
O Problema
Se, com o avanço da tecnologia nos últimos anos nós conseguimos monitorar o comportamento dos usuários e descobrir minuciosamente as melhores práticas para uma experiência fluída que gera a maior conversão, hoje percebemos que há um problema. Tudo ficou igual.
Quando tudo ficou igual mais de um século atrás, por conta da industrialização e da linha de montagem, surgiu o Art Nouveau como resposta. Um exagero de formas orgânicas, inspiradas na natureza, e uma rejeição da simetria clássica. Uma baguncinha feita visivelmente por humanos, e não por máquinas, estava presente.
A Jenny Wen, autora da frase que abre este ensaio, foi Diretora de Design do Figma e é líder de design na Anthropic (veja bem, na casa do Cláudio). Em sua palestra na Hatch Conference ela pisa no processo de design como ele foi embalado e vendido desde o design thinking. Agora, comece pela solução e não pelo problema. Não pesquise primeiro com o usuário. Confie na sua intuição. Pule algumas etapas e invente outras ao longo do caminho. E a melhor de todas: faça algo cuja única razão seja colocar um sorriso no rosto das pessoas.
Como designers, estamos vivendo uma época deslumbrantemente assustadora, e assustadoramente deslumbrante. (Uma IA criaria uma frase meio desengonçada assim? Ela sugeriu uma variação com travessão, juro).
A Chacoalhada
Tenho encontrado refúgio estudando sobre arte. Sabe como os dadaístas faziam poesia? Eles recortavam palavras soltas de jornais e revistas, as jogavam dentro de um saco e sacudiam. Então, retiravam as palavras, uma a uma, descobrindo frases. Dando chance ao acaso e aos ‘acidentes’.
A identidade da TIEN começou como uma brincadeira durante uma janta entre amigos, com cerveja e uísque. Não em um design sprint.
Para a AppleTV, “…a equipe embarcou numa série de experimentos que durou semanas com ângulos de luz, difusão, movimento e cor, refinando exatamente como cada tomada deveria refletir e refratar na câmera.”
Em todos estes casos, o processo de execução abriu espaço para o inesperado poder acontecer.
A atenção aos detalhes é apenas a ponta visível do iceberg do ‘craft’. O seu mais profundo valor está na deliberada, despretensiosa e imprevisível presença humana no ato de criar.
—Fabio Haag



